terça-feira, 21 de agosto de 2007

30 anos de Tieta do Agreste

A AMBIVALÊNCIA DO FEMININO DE JORGE AMADO

Generalizações são sempre arriscadas, mas quem nasceu no Nordeste, especialmente em municípios do interior, e viveu, no mínimo, a infância nessa terra, testemunhou ou ouviu falar da saga de mulheres repudiadas pela sociedade por terem adotado a própria liberdade como regra primeira, acima dos manuais de conduta do patriarcalismo que ainda assombra as relações na região.

Com Tieta do Agreste, lançado em 1977, Jorge Amado revelou para o resto do país a existência da mulher “gulosa de homens”, ansiosa por extravasar sua natureza. Preservadas as peculiaridades das experiências individuais, Tieta retratou o duelo do natural (mulheres geradoras de homens e de mulheres) e cultural (a função social da mulher ditada pelos homens).

Desde Gabriela, Cravo e Canela, 1958, Jorge Amado resolveu registrar os costumes de tipos reais. A linguagem, por vezes obscena, ficou conhecida do grande público através das novelas da Globo que estereotiparam a mulher fogosa e despudorada. Livre como uma cabra, Tieta se libertou dos desígnios familiares e privilegiou os instintos, a feminilidade. “É importante falar da posição ambivalente de Jorge Amado em relação à questão feminina. Ele enxerga a mulher como um homem libidinoso, às vezes como um objeto sexual e ao mesmo tempo como um ser político capaz de atormentar os homens em suas posições machistas. As mudanças que elas operam ou que são operadas a partir da chegada delas são fortes”, disse o professor de literatura e doutorando pela UFBA em Letras e Lingüística, Marcos Aurélio dos Santos Souza.

Pano de fundo para os ideais socialistas do autor, a história descreve as peripécias de uma adolescente que não sucumbiu à autoridade paterna e viveu as suas histórias de amor. Discriminada, Tieta, tal qual uma retirante, foi expulsa de Sant’Anna do Agreste, cidadezinha perdida na Bahia, prostitui-se para sobreviver até, 26 anos depois, retornar à terra natal rica, poderosa, em busca do resgate de sua natureza, porém trajada de um novo espírito cultural: Tieta, em São Paulo, adquiriu outros costumes mais sofisticados sem perder o apego aos parentes, incluindo o pai repressor que aceitava sua ajuda financeira.

Tieta retorna a Sant’Anna travestida de alegoria do progresso. A chegada na cidade é festejada e seu poder contribui para a instalação da luz elétrica, por exemplo. Dona de si, com os pés fincados nas areias de Mangue Seco, onde reativa os impulsos naturais, a cabrita impudica comanda a própria liberdade para cometer incesto com o sobrinho.

O imaginário de Jorge Amado trafegou pelas telas da TV e do cinema para, 30 anos depois de sua publicação impressa, fazer a sociedade enxergar a própria hipocrisia. A história de Tieta surgiu para confrontar os conceitos cristalizados do pai, o homem-centro, o dono, a lei, com as protagonistas da vida real, mulheres de pequenas cidades tão comuns no interior do Nordeste, transgressoras de todos os arquétipos de submissão, castidade, fidelidade. É a mulher no papel que ela sabe desempenhar melhor que o homem: o da sedução.

8 comentários:

Aninha (Bolada) disse...

Williams Vicent: adorei seu texto sobre esse grande romance de Jorge Amado (e que eu considero o melhor deles!!). Vai me dar subsídios para um trabalho da faculdade que estou fazendo sobre o autor (sou estudante de Letras da Faintvisa). Aproveitei ainda para visitar seu blog também (Aresias). Quanta sensibilidade!

Freddy Jorge Simões: seu blog é o máximo e você escolheu as pessoas certas para ajudá-lo! Nossa, e os seus textos sobre amor e sexo? Fiquei até perturbada! Vocês dois são muito inteligentes e sensíveis!

Renata Gabrielles: fiquei tomada de sentimento de indignação perante a epidemia de corrupção da qual padece o nosso Estado quando li seu texto, mas acho que o texto pedia um pouco mais de agressividade. Mas gostei muito.

Parabéns! Que blog é esse, héim??? A-do-rei!! rsrsrs

Ana Maria disse...

Wiliams,parabéns pelo texto.Vc escreve muito bem.Sim,sou irmã de Freddy e te vi bebê,coisa mais fofa!!

Cristina Verçoza disse...

Adorei os textos, conteúdo diversificado. Parabéns pelo blog maravilhoso. Vou indicar.

Paula Fernandes disse...

O texto está muito bem escrito! Parabéns!

Beijos!

Cátia Veloso disse...

O que dizer diante de tão bem escrito (e bem-dito) texto?
Vicent... Acho realmente que está de parabéns por produzir algo tão grandioso e enriquecedor a respeito desse tão apreciado e nordestino trabalho e ter a sensibilidade ao descrever coisas que muitos leram e nem todos entenderam o que se escondia nas suas entrelinhas. Ousado e ao mesmo tempo sincero ao descrever a mulher sob a ótica do próprio autor "Ele enxerga a mulher como um homem libidinoso", achei isso de uma profundidade absoluta.
Amei tudo isso!
Freddynho...Devo parabenizá-lo também por essa escolha. Só mesmo alguém como você para enxergar coisas certas (dons especiais) em pessoas também especiais. Não sei como explicar mas acredito em afinidades e isso, com toda certeza eu encontrei em você, temos uma sintonia tão fina que eu ratifico as tuas impressões sem pestanejar.Quando você enxerga algo de especial em alguma canção, por exemplo, sei que certamente irei adorá-la e terei as mesmas sensações sem ao menos tê-la ouvido.Somos isso!
Seu blog é perfeito e as contribuições que tem recebido estão fazendo dele uma verdadeira obra de referência.
Beijos mil.
Te amo.

Valdeline Barros disse...

O que posso acrescentar aqui?
Já foi dito tanto, e tão bem!
Ótimo texto, informativo e leve, Williams.
Ótimos colaboradores escolhidos, Freddy. Parabéns a todos!
Bem, parece-me que todo Jorge, quer dizer, todo aquele que possui Jorge no nome... inspira brilhantismo! Que maravilha! Jorge Amado não foge à regra... (risos). Vida aos Jorges!
[Isso foi só uma brincadeirinha, pra descontrair... sabe.]
Gosto de saber sobre a obra de Jorge Amado. Não a conheço muito bem, confesso. Porém gosto bastante. Essa "posição ambivalente de Jorge Amado em relação à questão feminina" achei muito interessante, e Tieta é mesmo a "personificação" disso. Não fosse só uma personagem.
De sensualidade e instintos aflorados, inegáveis. Mulher enfim.
"É a mulher no papel que ela sabe desempenhar melhor que o homem: o da sedução." Com toda força que lhe é peculiar. Revolucionária. De um modo que era necessário para "fazer a sociedade enxergar a própria hipocrisia".
Saudoso Jorge Amado. Vive ainda, por Tieta, e por tantas outras personagens... Vivo no imaginário popular, ele. De nome "Jorge" por fim. E há 30 anos, Tieta vive também, nele. É fantástico isso.

Williams Vicente disse...

vixi, nao sabia desse retorno todo, so que esse povo devia vsitar meu blog tb ne! ana, vc me viu bebe? que vergonha, heheehehe

Paulo Aguiar disse...

Gostei bastante do texto, aliás, de praticamente todo o blog! Parabéns a todos! Freddy, Williams e Renata, continuem assim com todo esse dom para a escrita! Serei visitante assíduo do blog.