sábado, 15 de setembro de 2007

Dia de celebrar a resistência na ponta dos pés

"Frevo":desenho do poeta Manuel Bandeira


Frevo: a história dos pobres excluídos pelo domínio da burguesia que pouca gente ouviu falar

Basta escutar a cadência para sacolejar o corpo, ainda que em mente. E só conhece a verdadeira força do frevo quem já subiu e desceu as ladeiras de Olinda, em Pernambuco. Terra onde não se precisa de um trio elétrico e um abadá e Ivete, Daniela ou Cláudia Leite para fazer a festa. É preciso resistência apenas. Aliás, a alma do frevo, desde o início, está ligada à palavra resistência e à essência da liberdade, da expressão artística e social das camadas pobres que não podiam pagar para participar da festa da burguesia recifense do final do século XIX.
A antropóloga Rita de Cássia Barbosa de Araújo, da Fundação Joaquim Nabuco, explica que em meados do século XIX as ruas do Recife começaram a ser calçadas, saneadas e iluminadas, o que despertou a cobiça da classe dominante que queria ocupar o espaço público para torná-lo privado de suas manifestações religiosas, cívicas, políticas e, claro, para o carnaval.
As elites urbanas também desejavam substituir o Entrudo, festa de origem portuguesa considerada por elas grosseira e violenta. O carnaval deveria se tornar algo para pessoas letradas, ricas e os pobres que acompanhassem de longe a festa de máscaras finas e que não se aproximassem sob pena de ser banidos pela polícia.
A verdade é que o carnaval dos rejeitados pela burguesia nunca deixou de existir. Até que na década de 1880, os excluídos, que eram a maioria, levaram às ruas os clubes pedestres em cortejo com estandartes e os foliões formando um cordão, ao contrário dos clubes de alegoria da elite que desfilava em cima dos carros.
Desta união da classe pobre do Recife para fazer sua própria festa de carnaval nasce o frevo. Fruto da resistência à hipocrisia e dominação burguesas e da evolução dos dobrados de inspiração militar, de polcas, maxixes, quadrilhas e modinhas: o frevo "freve" nas ruas da capital pernambucana com as bandinhas de metal e os capoeiristas que imprimiram os passos repetidos em todo Nordeste até hoje.
14 de setembro é o dia do frevo, mas O Jornal Pequeno de Recife foi o primeiro a estimular a festa popular e a registrar o ritmo. Em 9 de fevereiro de 1907, um Sábado de Zé Pereira, o jornal batiza o frevo que se formava sob o calor da resistência dos pobres aos devaneios dos ricos décadas antes.
Graças que os trabalhadores e negros ex-escravos do Recife da época eram proibidos de se misturarem a festa da burguesia, copiada dos moldes de Viena e Paris, porque assim nasceu este ritmo marcante e o carnaval mais democrático que existe no planeta.









Um comentário:

Cristina Verçoza disse...

Eu posso falar por experiência própria, pois conheço os carnavais do Rio, Salvador e Recife: nada se compara ao carnaval de Recife, que tem uma energia diferente, contagiante, além da diversidade de cores e estilos. Tem frevo, maracatu, ijexá, mangue beat, MPB, axé e até samba, ou seja, não há carnaval mais completo e democrático em outro lugar. Não tem essa historinha de pagar fortuna por um cordão de isolamento ou um lugar na arquibancada. E sem contar as prévias, os bailes famosos, como o Baile Municipal no Chevrolet Hall e o Bal Masqué no Clube Português. Passei um mês de férias em Recife no ano passado e foi a melhor viagem da minha vida. Amo essa cidade!!!