quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Outro mundo

A profissão de jornalista nos dá a grata oportunidade de ouvir histórias interessantes - nem todas felizes, mas sempre interessantes e, sobretudo, surpreendentes! Muitas vezes, acreditamos que os melhores relatos nos virão de grandes intelectuais, mas acabamos admirados com os relatos de pessoas simples.

Semana passada, fiz algumas entrevistas para uma pauta (assunto de uma reportagem) sobre pichações. Dentre todas, uma em especial chamou a minha atenção. O entrevistado: um franzino adolescente, pichador. Simpático e disposto a revelar tudo sobre o assunto, relatava com entusiasmo os feitos dele.

Contou-me que começou a pichar por influência dos amigos e que parou de estudar na 5ª série. “Pichar é um vício”, afirmou. Disse percorrer vários bairros em busca de um alvo a ser pichado. Feito ele, outros jovens buscam de fama e emoção. Sentem-se heróis. Eu estava diante de uma realidade completamente diferente da minha. Aquele garoto parecia viver em outro mundo, ou sou eu que vivo?

As “tags” (nome dado às assinaturas deles), em geral, são acompanhadas de uma sigla, que se refere ao bairro ou ao grupo dos pichadores. Quando um deles picha em outro bairro, gera um descontentamento no grupo deste bairro. “É uma ofensa. Então vamos pichar no deles também.”

O menino disse ficar frustrado quando faz uma “tag” pequena. “Gosto de detonas grandes.” Sempre me surpreendia com uma palavra do vocabulário dele. “Detona é o mesmo que piche”, explicou-me. Só um alvo escapa: as igrejas.

Espantava-me sua tamanha destreza e aptidão para pichar nos lugares mais altos e inusitados. Então, perguntei-lhe como ele e seus colegas conseguiam pichar viadutos. “Ah, isso é muito fácil. A gente se pendura com uma mão e picha com a outra.” E o fazem sem a menor proteção. Para pichar prédios, algumas vezes, contam com a ajuda de funcionários ou “molham as mãos deles”. São alpinistas urbanos.

O rapaz contou-me, com orgulho, que é um dos mais importantes do grupo dele. Sua família sabe? Perguntei-lhe. Disse que não. “Uma vez a minha mãe desconfiou, mas inventei uma história. Não quero dar esse desgosto a ela.” Tão jovem e já perdeu muitos amigos. Em tão tenra idade e já deu de cara com a morte. Afirmou ser consciente do crime que pratica. Entretanto, garantiu que não teme a polícia. “Tenho medo mesmo é dos encapuzados (integrantes de grupo de extermínio)”. Ele não sai para pichar sem pedir a proteção divina. “Temos até uma oração. A oração do pichador”, revelou.


“Ser pichador dá prazer, mas você pode pegar o bonde para o inferno ou para o céu mais rápido. Quero sair dessa vida, não quero morrer.” Contudo, quando o problema está relacionado ao vício, não é fácil resolvê-lo. O garoto disse que no dia da entrevista faria a última pichação. Ninguém acreditou, e eu nem sei se acredito. No entanto, torço para que tenha sido verdade. Vi nos olhos dele uma vontade enorme de viver, de escrever uma outra página na sua história. Ele precisava de ajuda. Porém, eu me sentia com as mãos atadas. O que eu poderia fazer? Aconselhá-lo? Aconselhei. E rezar por ele é tudo o que posso fazer. Talvez nunca mais o veja, e essa incerteza me angustia. Quero saber como ele está, e se acaso conseguiu livrar-se do vício (se é que esse comportamento pode ser classificado como tal). Já tive, inclusive, a fachada da minha casa pichada, e confesso ter sentido raiva dos que fizeram isso, mas não consigo mais condená-los, pois, talvez - da mesma forma que aquele menino - eles também não tenham uma família estruturada. E falta de estrutura não quer dizer falta de dinheiro, e sim falta de amor, de atenção, de educação e de carinho.


Crime: pichar é considerado crime ambiental previsto na lei n° 9.605/65, com penas de multa e detenção que variam de três meses a um ano. Se o prédio for tombado, a punição mínima aumenta para seis meses. Mas, no geral, a penalidade fica só na prestação de serviços comunitários.

3 comentários:

Williams Vicente disse...

É o mundo em que vivemos, o mundo sem educação. De um lado, os excluidos aquem da consciencia da limpeza ambiental. Um vício? como tirar o doce da criança se essa foi talvez a única oportunidade/canal que ela teve para se expressar?. Se o pichador tem receios de pintar uma igreja e provocar desgosto na mãe é provavel que o aparato do berço ele teve. Quem despertou o desejo de protestar nas paredes, a sociedade? é feio, mas é real, talvez esteja na hora de criar mais espaços para a pichação-arte, e independente das razões, os neo-anarquistas precisam de punição para que descubram outros meios escape que nao sejam os predios publicos

Renata Gabrielle disse...

Willians, concordo com você. Os pichadores devem ser punidos. Se há lei é para ser cumprida e não para ser relaxada e tornar-se serviço comunitários. A impunidade é uma das responsáveis pela violência e corrupção que presenciamos no Brasil. Além do mais, é do nosso bolso que sai os recursos para reparar os danos que eles causaram ao patrimônio público. Só fiquei surpresa por ser um mundo que não conhecia e achei interessante relatar.

Anônimo disse...

A pichação é sim um vicio por q eu começei a pichar aos 10 anos de idade e hj eu tenho 14 jah tentei para joguei materiasi de pichação(Gis de cera tinta spray e outras tintas) fora eu não faço exatamente pixo e sim tag q é uma coisa diferente onde não C usa sprays ou tinta e sim giz de cera mais de vez em quando usamos tinta quando conseguimos

jah fui obrigado a apagar tags(pichãção onde C escreve seu nome ou apelido com giz de cera etc..) q eu fiz jah corri da policia rodoviaria quando fui pichar uma placa no rodoanel colocaram a arma na minha cara eu peguei a bicicleta e corri destrui a bicicleta quando joguei ela no barranco

jah subi em berais altos telhados jah quase morri incontaveis vezes

eu jah tentei parar mais não consigo agora eu estou tentando com a ajuda da minha mãe e familiares