segunda-feira, 14 de maio de 2007

FLORBELA...

Longe de ti são ermos os caminhos
Longe de ti não há luar nem rosas
Longe de ti há noites silenciosas
Há dias sem calor, beirais sem ninhos

Meus olhos são dois velhos pobrezinhos
Perdidos pelas noites invernosas
Abertos sonham mãos cariciosas
Tuas mãos doces, plenas de carinhos

Os dias são outonos - choram, choram
Há crisântemos roxos que descoram
Há murmúrios dolentes de segredos

Invoco o nosso sonho, estendo os braços
E ele é, oh, meu amor, pelos espaços
Fumo leve que foge entre os meus dedos.

O soneto acima, intitulado Fumo, é de Florbela Espanca, poetisa portuguesa vivida entre fins do século XIX e início do século passado. Ela escrevia com tamanha verdade que causava polêmica na sociedade da época, devido à forma direta e "despudorada" pela qual tratava sentimentos como amor e desejo. Florbela morreu bastante jovem, com pouco mais de trinta anos de idade. Sua obra permanece atualíssima e encantadora, mesmo nos dias de hoje, em que prevalece o verso livre em detrimento do soneto, o qual é um estilo mais parnasiano (que apresenta preocupação exacerbada com métrica e rima). Dentre os fãs ardorosos de Florbela Espanca, está o cantor e compositor cearense, Raimundo Fagner, que musicou magistralmente os sonetos "Fumo", "Fanatismo" e "Chama quente". Vale à pena conferir a bela obra da autora. Um de seus sonetos mais conhecidos chama-se "Amar!", citado abaixo:

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: aqui...além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois, se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar.

Um comentário:

Williams Vicent disse...

vc andou visitando meu blog e disse que ha tempos deixou de escrever sobre as coisas do coração e passou a tratar de ameninades, mas o que sao amenidades?tudo é tudo e tudo é nada, a unica certeza pra variar é a morte. o amor onde esta?
"Há murmúrios dolentes de segredos".
O amor é quase sempre solitário.Escreva.