terça-feira, 20 de novembro de 2007

Raimundo Fagner x Caetano Veloso: histórica batalha de egos na música popular brasileira!

Eles marcaram para sempre a música popular brasileira - cada qual com um estilo peculiar - e conquistaram uma legião de admiradores no decorrer de suas longevas carreiras. O primeiro, Raimundo Fagner Cândido Lopes, é cearense de Orós. O segundo, Caetano Emanuel Vianna Teles Veloso, baiano de Santo Amaro da Purificação. Ambos poderiam ter compartilhado o sucesso e se tornado amigos e parceiros musicais. No entanto, tornaram-se protagonistas de uma lendária briga, iniciada ainda nos anos 70 e que perdura até os dias atuais. Segundo Fagner, a briga iniciou-se no dia em que Caetano o chamou a sua casa, juntamente com outros convidados, e se recusou a cantar, alegando cansaço. Fagner, em início de carreira, tomou posse do violão, fez um verdadeiro show e foi aplaudido sucessivas vezes pelos convidados. Caetano teve um acesso de ciúmes e fechou a cara. A situação piorou ainda mais quando, tempos depois, Caetano virou as costas a Fagner quando este conversava com Nara Leão, colocando-se entre os dois. Fagner jamais colocou os pés novamente na casa do baiano, que tachou publicamente o cearense de mau compositor e mau caráter, e só se refere a ele como "titica de galinha".


Fagner acredita que exista algo mais nessa briga do que a simples explosão de duas estrelas de temperamento forte. Ele acha que, na verdade, o que há são maneiras diferentes de ver a música. "A tropicália é uma ditadura cultural. Morreu há muitos anos. Era um som americano, cheio de reggae. Não foi fácil sobreviver à barreira cultural que eles armaram, que é pior do que a censura. (...) Caetano não é o malandro que pensa que acredita ser: é um ingênuo chegando às raias de otário. Só é esperto na música dele".

Em outubro de 2005, quando da ocasião de uma entrevista à Revista Veja, Fagner falou sobre outra briga que teve com Caetano: "(...) eu morava no Rio e era começo dos anos 80. Estávamos eu, Roberto Carlos e ele preparando uma canção para o 'Nordeste já'. Foi uma mobilização de artistas para angariar fundos para o Nordeste, que havia passado por uma seca enorme. O Roberto, com aquele jeito apaziguador, começou a falar como era legal o fato de eu e Caetano estarmos juntos, depois de brigarmos tanto. Daí, Caetano foi se lembrando das brigas e se zangando. Eu sabia que ele estava com fome e fui à cozinha fazer alguma coisa para ele comer. Mas na minha geladeira só tinha ovo. Fiz o ovo e vinha vindo com ele para dar ao Caetano, mas ele continuou falando, falando, querendo confusão. Bom, terminei entrando no pau e jogando o ovo de Caetano no chão. Ele sabe que, comigo, é no tapa". Nessa mesma entrevista à Revista Veja, Raimundo Fagner complementa: "(...) tem uma história que diz que baiano não 'nasce', baiano 'estréia'. E Caetano tem um problema de ego: quer sempre aparecer. Quando não tem assunto, vai à mídia e diz que é melhor que o Chico Buarque e o Milton Nascimento juntos".

Em setembro de 2006, Fagner falou ao programa Fantástico, da Rede Globo, como resposta a Caetano, o qual, três semanas antes, havia tachado o cearense de "besta" no mesmo programa: "eu aprendi a rebeldia com ele. Quem inventou a rebeldia no Brasil? Caetano Veloso. As duas coisas de que mais Caetano gosta são: ser elogiado pelo New York Times - que é muito mais importante do que uma crítica no Brasil, que ele menospreza - e esperar eu falar mal dele. São as duas coisas de que mais Caetano gosta! Agora, como ele fala tanto na terra dele, Santo Amaro da Purificação, como eu falo de Orós, ele podia dar um jeitinho lá, porque é uma cidade fantasma, uma cidade horrível. (...) Tenho uma sugestão muito boa: a gente gravar um disco. É muito melhor do que esse bate-boca".

A verdade é que, no saldo de toda essa batalha de egos, o cantor Raimundo Fagner sai vitorioso: houve uma época em que o cearense reinou absoluto na MPB por pelo menos seis anos, ficando atrás somente do rei Roberto Carlos em vendagem de discos. Lançou, seguidamente, quatro discos que curvaram a imprensa a seus pés e que são de extrema importância na sua carreira e na história da música brasileira: "Eu canto [quem viver chorará]" (1978), "Beleza" (1979), "Vento Forte" (1980) e a obra-prima "Traduzir-se" (1981). Esses discos contêm mega-sucessos como "Revelação", "Noturno", "Frenesi", "Eternas ondas" e "Fanatismo", que tomaram conta das rádios na época e lideram os pedidos do público até hoje em seus shows. Mesmo quando começou a corromper seu estilo, a partir do disco "A mesma pessoa" (1984), migrando da fase mais intelectualizada para a fase popularesca, Fagner perdeu o respeito da crítica, mas aumentou ainda mais o seu público e continuou a vender muitíssimos discos. São dessa fase os álbuns: "Romance no deserto" (1987), que trazia o mega sucesso brega "Deslizes", música certa até hoje no repertório de todos os tecladistas de churrascaria; "O quinze" (1989), que contou com os sucessos "Retrovisor" e "Amor escondido", este incluído na trilha sonora da novela Tieta, da Rede Globo; e, por fim, o disco "Pedras que cantam" (1991), cuja faixa-título também foi tema de novela da globo, e trazia o estrondoso hit cafona "Borbulhas de amor", versão em português da canção "Borbujas de amor", de Juan Luís Guerra. Cabe ressaltar uma coisa: entre 1984 e 1987, Raimundo Fagner gravou dois ótimos discos com o rei do baião Luiz Gonzaga, os quais também tiveram êxito de vendas. Somente após o disco "Pedras que cantam" (1991) é que Fagner passou a fazer discos inexpressivos tanto para a crítica quanto para o público. A partir de 1992, deu-se o seu ócio criativo, mas ainda assim, ele teve algumas músicas bastante executadas em rádios, como "Lembrança de um beijo" (1994) e "Espumas ao vento" (1997), composições de Aciolly Neto pinçadas do repertório de Flávio José, forrozeiro paraibano que faz um enorme sucesso no Nordeste. No início da década de 2000, Fagner voltou à tona novamente com discos ao vivo de releituras de sucessos e outro gravado com o maranhense Zeca Baleiro, que trouxe o sucesso "Dezembros", tema de Reynaldo Gianechinni na novela "Da cor do pecado" (2002). Recentemente, o cearense gravou um CD intitulado "Fortaleza", que conta com a participação do onipresente Jorge Vercillo numa das faixas, mas está muito longe de ter a força e a genialidade de um disco como "Beleza" (1979).

Em contrapartida, o baiano Caetano Veloso, que tem muito tempo de carreira à frente de Fagner e possui uma quantidade bem maior de trabalhos lançados, dentre LPs, CDs e DVDs, jamais conseguiu vender sequer um terço do que o cearense vendeu. Enquanto no auge de sua verve criativa, entre 1975 e 1983, Caetano vendia uma média de 90 mil cópias por LP, Fagner, antes mesmo de prensadas as cópias de um lançamento seu, já possuia pedidos de mais de 350 mil discos em lojas espalhadas pelo Brasil - o que equivale a quase quatro discos de ouro. Caetano, por seu lado, só veio receber disco de ouro em 1994, com as vendagens do CD "Fina Estampa", disco de releitura de canções latinas, e nunca por um disco totalmente autoral. E o baiano só ultrapassou a marca de 1 milhão de cópias por um trabalho em 1999, quando já tinha 32 anos de carreira, e com o disco ao vivo "Prenda minha", que era puxado pelo mega-sucesso-brega-chiclete "Sozinho", composição de Peninha, autor de outros hits cafonas como "Sonhos" (que o próprio Caetano gravou em 1981) e "Alma gêmea" (sim, aquela das 'metades da laranja') que invadiu nossos ouvidos na voz de Fábio Jr.

Caetano até que merecia ter vendido tanto quanto Fagner na mesma época, pois fez muitos e bons álbuns como: "Qualquer coisa" (1975), "Muito [dentro da estrela azulada]" (1978), "Cinema Transcendental" (1979), "Outras palavras" (1981), "Cores, Nomes" (1982) e "Uns" (1983), mas é que, apesar de colecionar críticas elogiosas de jornais estrangeiros a seu trabalho e de ser querido por praticamente toda a nata da tradicional e da novíssima MPB, ele não possui a proximidade com o público e o carisma do seu "inimigo", Raimundo Fagner. Bom mesmo seria se Caetano acatasse a sugestão de seu desafeto, e gravasse um disco junto com ele, para ver se acabava logo com toda essa descabida "batalha" de egos. A música popular brasileira lucraria muito mais com isso!
Fontes pesquisadas:
Revista Veja - Ed. 1928 (26/10/2005)
Montagem/ilustração: Paulo Simões

16 comentários:

Elis disse...

Pois é, como já afirmei na 1ª parte desse Especial sobre Fagner, fiquei surpresa ao saber de tantas peculiaridades envoltas na MPB.

Essa briga infinda: Fagner x Caetano já é algo mais notório por ter sido veículada no "glorioso" Fantástico...hehe (agora, enfim, não preciso mais assistir a esse troço, tem Heroes em outro canal, blz...;)

Bem, voltando ao assunto em questão, desde que você me falou sobre tais conflitos e ainda mais agora lendo com calma, sempre tenho a impressão de que Caetano é um tanto infantil, ficar de cara amarrada porque o outro cantou, virar de costas para não falar como ele, são comportamentos de crianças birrentas, vamos combinar...

Fagner não fica tão atrás já que de alguma forma dá a Caetano espaço para tais atitudes, porém é fato e do conhecimento até do Reino Mineral (como diria Mino Carta) que Caetano tem um ego infladíssimo, se acha melhor do que todos e tudo, pode ser até um tipo de compensação para uma provável baixa-estima, mas deixando as teorias psíquicas de lado... Alguém que fala mal do Rock e depois faz um disco em homenagem ao Nirvana só para receber elogios estrangeiros, não deve ser levado em consideração!

Acessem meu blog:
wwwenquantopenso.blospot.com

elilson disse...

Fagner VS Caetano; Jonh Lennon VS Mcarteney; Madonna VS Courtney Love; Christina Aguilera VS Mariah Carey; Sandy VS Wanessa; Eminem VS todos os artistas...
Esse mundo musical sempre foi, é e sempre será marcado por essas engraçadas- e em alguns casos-ridículas disputas de ego...;
Quanto a briguinha de caráter psicológico infanto-juvenil de Fagner e Cateano...eu fico do lado do Fagner! Cateano gosta de aparecer sim! Quer sempre estar sendo notado, nem que seja "enrolando" a Luana Piovani e depois a "desmentindo" publicamente...é uma pena para um artista tão "consagrado" quanto ele, que de fato é um ótimo artista!
Eu, particurlamente, não curto nem um dos dois brigões...acho sinceramente que existem artistas bem melhores que eles no cenário MPB, inclusive os mais jovens.
Essas briguinhas de artistas já me fazem ter náuseas, mesmo me fazendo rir tanto às vezes...
Se for assim, prefiro admirara Marisa Monte-uma ótima cantora, descreta e que trata apenas de sua carreira e paixão epla música-quando trata!

Ana Luiza disse...

Estou do lado do Fagner, incondicionalmente! Caetano é bom, mas é arrogante e pretensioso, e acha que sua inteligência e talento estão acima dos demais!

Dedé disse...

Bem, Caetano Veloso é essa criatura acarajeica, ou não. Salve Paulinha e sua paciência.
Tanto Veloso como Fagner são dois caras super inspirados para escrever. Não há uma música sequer que não tenha uma boa letra e um bom conteúdo, nem de um, nem do outro.
Acho que isso é o que importa!!!!

Notícias do Amanhã disse...

"Baiano não nasce, estréia." É nessa linha de raciocínio que Caê se apoia. Aqui na Bahia a maioria tem esse pensamento justamente por a mídia tornar a Bahia um celeiro da bonança. Só que, na verdade, pra quem conhece a Bahia, sabe que é exatamente o contrário. Povo descivilizado, pra não dizer primata (no sentido de sociabilidade). Além do mais', contrariando uma frase clássica de Caetano, a Bahia é horrível.

Classeblog disse...

Não creio ser o indice de vendagem de discos o parâmetro mais apropriado para se definir um artista como melhor do que outro com menor vendagem num país de baixo nível cultural. Os dois artistas são bons , porém claro que o Caetano leva grandíssima vantagem em termos de conteúdo e estética. Também não acho legal esse seu lado problemático, mas o comportamento pessoal de um artista não deve fazer com que sua obra seja melhor ou pior avaliada. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Ouço os dois numa boa, mas Caetano é mais magnífico. Hílton

remulo disse...

Nunca. Mas nuuunca mesmo o valor de um artista será medido por suas vendas.Conteúdo intelectual vai muito além disso. Se fôssemos nessa linha de raciocínio Calypso e É o Tchan (no auge) seriam deuses!
Acho ridículo o tamanho do EGO do Caetano Veloso, extremamente ridículo. Mas que é um dos, senão o maior compositor da música brasileira...Isso é! Como o Fagner também tem seus méritos.Homem incrível de composições lindas.

remulo disse...

Nunca. Mas nuuunca mesmo o valor de um artista será medido por suas vendas.Conteúdo intelectual vai muito além disso. Se fôssemos nessa linha de raciocínio Calypso e É o Tchan (no auge) seriam deuses!
Acho ridículo o tamanho do EGO do Caetano Veloso, extremamente ridículo. Mas que é um dos, senão o maior compositor da música brasileira...Isso é! Como o Fagner também tem seus méritos.Homem incrível de composições lindas.

Anônimo disse...

é meu caro mas romulo mas calypso e é o than jamais podem ser comparados ao genio raimundo fagner..
e vender disco é como ganhar campeonato voce jamais sera o melhor do mundos e não vender nada..
o valor de um artista esta se mede tembem nas vendas de discos..
e caetano jamais foi o maior compositor do pais pelo contrario sempre grava musicas dos outros e se vc não leu a materia o unico disco dele que vendeu foi uma coletanea de regravações de terceiros..

Anônimo disse...

Seu Fágner escrevei "Deslizes"...já sai perdendo de goleada.

José Ivã disse...

Pois é, a competição de egos desses dois beira a esquizofrenia. Cada qual no seu quadrado, mas, diga-se de passagem, Fágner é um compositor/letrista sofrível. Ele quase não tem letras e músicas de sua autoria. A maior parte é em parcerias, o que faz com que se sobressaia. Inclusive traz no currículo canalhices como a que fez com Geraldinho Azevedo (Dona da minha cabeça) e Motivo de Cecília Meireles, entre outras, até hoje proibida pela família. Já Caetano é imbatível na arte de compor. A trilogia Gilberto Gil, Caetano e Chico Buarque não há igual. Há bons como Caetano; melhores,até hoje está por aparecer. E duvido que brotem!

José Ivã disse...

Essa rapaziada toda que gosta de Fager desconhece ou idolatra o mesmo por causa de seu carisma e das vendagens de seus discos. Bobagem! Se vocês conhecerem o trabalho de Fagner como conheço veriam que se este tiver vinte composições próprias, têm muito, viu "SEU Anônimo". Você pode gostar de Fagner, é um direito seu, mas pesquise e veja se não estou certo,. Tenho os trabalhos de Fagner desde o inicio de carreira até as besteiradas como "Romance no deserto" e sei, que é justamente o contrário do que você afirma. Veja a obra de Caetano, então. O fato de ele ser arrogante ou não é irrelevante. Ele é um dos melhores compositores desse país. Fagner, um dos melhores intérpretes, veja a difernça. Noventa por cento de suas canções é feita em parceria, amigo. Já Caetano e Gil... Aliás, eu não consigo dissociar a obra dos dois. para mim são almas gêmeas e estupendos cantores/compositores da MPB de ontem, hoje e sempre!

Anônimo disse...

QEU PENA! EU GOSTO DOS DOIS... NO TRABALHO DOS DOIS HÁ INTERSECÇÃO DE (ÓTIMOS!!!!) ARTISTA, COMEÇANDO PELA SAUDOSA E GLORIOSA NARA LEÃO, FÃ CONFESSA DOS DOIS BRIGUENTOS; MERCEDES SOSA; ZIZI POSSI E, COMO NÃO PODERIA DEIXAR DE SER CITADO, CHICO BUARQUE E MILTON!!!!! NÃO É POUCO!

Panis et Circenses!!!! disse...

Concordo com os amigos aí de cima que disseram que vendagem de discos quase sempre não prediz qualidade musical ( aliás: que comparação no sense essa de títulos em futebol e vendagem, putz! nada a ver!...Pensemos: será que o Fagner não aumentou essa história aí? Sei lá, um conhecido meu que já trabalhou próximo ao Caê disse que ele é uma pessoa extremamente dócil e amável - o que to querendo dizer é que o autor do blog só postou a versão do Fagner e todos aqui a repostaram como sinônimo da verdade dos fatos ( Já perguntaram pro Baiano!?) E outra: achei o texto tendencioso, pró-Fagner mesmo, sempre gostei muito do Fagner, acho a poesia de Canteiros e Coração alado muito fortes, mas, caramba!! Conta quantos sucessos populares caetano já teve e mais: a obra de Caetano é bem mais profunda ( Fagner nunca fez algo como " Transa") e experimental, Caetano é um livro da MPB, Fagner, um versículo, muito belo - por sinal - Mas apenas um versículo!!!

Panis et Circenses!!!! disse...

O texto do blog é super-parcial. Opinião cada um tem a sua e tais devem ser respeitadas, entretanto, me pregunto: da onde tiraram a informação que Caetano é menos isso ou aquilo do que Fagner!? Se for por vendagem é como o amigo ali disse: Não dá pra se comparar um artista a outro pelas vendas de discos, senão teríamos que colocar seres sofríveis da nossa música acima de gênios da MPB...Façamos assim então,peguem o melhor álbum de Fagner e compare com Transa de Caetano...

Jeff disse...

Dá nem graça comparar Caetano com Fagner.

Caetano é um monstro da nossa música/arte.