Mostrando postagens com marcador Entrevistas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Entrevistas. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Entrevista: Maurício Cézar.

O músico Maurício Correia Cézar Neto tem 27 anos de idade, toca vários instrumentos e possui um vistoso currículo. Já acompanhou várias personalidades importantes da cena musical pernambucana, como Antônio Nóbrega e Nena Queiroga. Além disso, atua como professor de música nos ambientes SESC e coordena um grupo de chorinho para crianças e adolescentes. Nesta grata entrevista, concedida por e-mail, ele fala sobre sua carreira, formação e referências.

Freddy Simões - Com que idade você descobriu sua vocação para música? Há outros músicos na sua família?
Maurício Cézar - Aos sete anos de idade, lembro-me de ter comprado uma flauta doce com o dinheiro da merenda que havia levado para a escola e isso certamente contribuiu para que eu tomasse gosto pela música. Antes disso, guardo na memória algumas músicas que me chamaram atenção e as tenho como madrinhas da minha carreira musical. São elas: Lilás (Djavan), Construção (Chico Buarque) e One Day In Your Life (Michael Jackson). Meu pai foi clarinetista amador e não tenho tantas lembranças dele como músico, também não tive o prazer de tocar ao seu lado, já que ele faleceu num acidente de carro em 1986.

FS - Quando começou a estudar música? Qual a sua formação?
MC - Não me lembro com exatidão se em 97 ou 98, mas meu primeiro contato concreto com a música foi no colégio estadual Joaquim Távora, em Niterói-RJ. Estudei teoria e vários instrumentos que estavam à disposição da banda da escola, entre eles, escaleta, trompete e percussão. Após alguns anos, me mudei para Recife e continuei em bandas de escolas, agora, me dedicando ao clarinete que havia herdado do meu pai. Aos treze anos, comecei a participar de uma banda evangélica na qual ainda tocava clarinete. Aos quatorze anos, já ganhava os primeiros cachês com o teclado e de lá para cá não parei mais. Estudei piano popular no conservatório pernambucano de música e com os pianistas Tonny Yucatan e Marco Diniz; no cavaquinho tive Marco César como orientador e esse sim foi, sem dúvidas, a maior referência musical que tive nessa fase. Conclui o curso de graduação em música pela UFPE e estou no final de uma pós-graduação em história das artes e das religiões pela UFRPE.

FS - Você toca piano, cavaquinho, violão e acordeon. Considera-se multi-instrumentista ou seu instrumento é mesmo o piano?
MC- Considero-me um curioso! Porém, procuro tirar proveito dessa curiosidade e sei que boa parte do que aprendi até hoje foi fruto disso. Instrumentista é um termo que procuro dar a pessoas que têm um domínio muito grande de técnicas e repertórios. Seguindo essa visão, não acredito que tenhamos mais de uma dúzia de multi-instrumentistas no Brasil.

FS - No Brasil, há grandes pianistas-compositores-arranjadores como, por exemplo, Gilson Peranzetta, Ivan Lins, Antonio Adolfo e César Camargo Mariano. Com quem você se identifica mais?
MC - Apesar de admirar todos, tenho uma afinidade maior com o trabalho de César Camargo Mariano e o considero um dos maiores arranjadores que o Brasil já teve.

FS - Quais músicos estrangeiros têm influência no seu trabalho?
MC- O pianista Oscar Peterson e o cantor Stevie Wonder são, para mim, referências de técnica e criatividade, porém admiro o trabalho de muitos outros.

FS - Dentre os figurões da MPB (Chico, Caetano, Gil, Elis, Nara, João Bosco etc.), você se diz mesmo fã confesso de Djavan. Acaso poderia mensurar a importância da música dele na sua vida?
MC- Sou sim muito fã de Djavan, mas confesso que atualmente estou cada vez mais apaixonado pelo trabalho de Chico Buarque. Acho um crime que a juventude não tenha acesso a sua obra através das rádios FM’s.

FS - Você compõe?
MC - Sim, componho músicas, mas não consigo colocar letras, essa parte eu deixo para meus parceiros.

FS - O que lhe dá mais satisfação: sua atuação como professor de música nos ambientes SESC ou o trabalho como músico da noite?
MC- Os dois trabalhos têm o seu lado gratificante e, no momento, não conseguiria me afastar deles.

FS - Fale um pouco sobre grupo de chorinho que você coordena.
MC - O projeto foi idealizado pelo presidente do SESC, o prof. Josias Albuquerque, que é um grande admirador do choro e grande incentivador do nosso grupo. Temos pouco mais de um ano, e começamos com crianças do zero! Quer dizer, crianças que nem ao menos sabiam ao certo o que era choro. Hoje, me sinto muito orgulhoso pelo trabalho que temos feito, e agradeço a Deus por ter me escolhido para essa tarefa. Tenho a oportunidade de apresentar “música de verdade” a essas crianças e adolescentes. E já é visível o avanço delas. Já podemos discutir repertório e conversar sobre compositores de uma forma satisfatória e prazerosa.

FS - Quais os grandes nomes do chorinho, em sua opinião?
MC - Vou citar alguns mestres: Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Altamiro Carrilho, Rossini Ferreira, Luperce Miranda(esses dois últimos pernambucanos). Entre seus discípulos estão: Hamilton de Holanda, Marco César, Yamandu Costa, Danilo Brito, etc.

FS - Quais as personalidades com quem você teve mais prazer em tocar ou gravar em estúdio?
MC - Antônio Nóbrega, certamente foi o mais divertido! Além disso, ele passa um clima muito bom no estúdio, e olhe que passamos por uma prova de fogo, já que o tom de uma das músicas foi alterado na hora da gravação e toda a digitação no instrumento teve de ser alterada.

FS - Qual a sua opinião acerca dos artistas que têm feito a novíssima MPB, tais como Jorge Vercilo, Zeca Baleiro, Ana Carolina, Maria Rita, Vander Lee, Vanessa da Mata, Roberta Sá, entre outros? Algum em especial lhe chama a atenção?
MC- Sei que minha resposta será polêmica, mas serei bem sincero. Todos acima têm seus méritos, principalmente por conta desses problemas com a pirataria. Admiro o trabalho de Jorge Vercilo e de Zeca Baleiro - esses dois pra mim têm um maior destaque no presente momento. Vivemos uma constante queda na qualidade técnica dos cantores e, apesar da evolução dos equipamentos de áudio, como retorno auricular, podemos perceber que a desafinação é constante nos shows de alguns desses artistas. Em alguns casos não sabemos se o artista está cantando ou gritando, as melodias não são tão marcantes como as do passado, vivemos uma queda constante na construção melódica, e a impressão que eu tenho é que agora só o ritmo interessa. Enfim, de trinta anos pra cá, a qualidade musica caiu. Tenho lá minhas dúvidas se a solução seria regravar músicas antigas, pois ouvi um dia desses a gravação de Beatriz (Edu Lobo e Chico Buarque), na voz de Ana Carolina, e tive uma decepção inigualável.

FS - No final do ano passado, a cantora Ivete Sangalo gravou um DVD no Maracanã lotado – em superprodução comparada somente às da popstar Madonna – e foi alçada definitivamente ao patamar de estrela maior da música brasileira e recordista de vendas no país, mesmo com a pirataria. Você gosta do trabalho dela?
MC - Não! Mas ela é muito simpática!

FS - E de Pernambuco, qual o artista que você mais admira?
MC - Silvério Pessoa, Alceu Valença e Antonio Nóbrega.

FS - A qualidade e criatividade da música popular brasileira entrou em declínio a partir dos anos 90 ou essa é uma opinião de críticos nostalgistas e conservadores que acreditam não existir nada melhor após a geração de Chico e Caetano?
MC - Concordo com os críticos nostalgistas e levanto uma questão: diga-me três músicas desses últimos anos que serão consideradas hinos, como Carinhoso, O bêbado e a equilibrista ou Wave? Diga-me três cantores que terão seus nomes lembrados, como Elis Regina, Nelson Gonçalves e Tim Maia? Diga-me três músicas que exprimam tanto sentimento quanto Atrás da porta, Suburbano Coração ou ainda Trocando em miúdos? Será que tem?

FS - Música é arte e, portanto, expressão da individualidade de seu criador. Para você, a música é forma de libertação, válvula de escape das mazelas emocionais ou profissão como outra qualquer?
MC - As três.

FS - Muitas vezes, quando se diz a alguém, "sou músico", é possível ouvir a pergunta "sim, mas você não trabalha?". Por quê, num país de musicalidade tão rica quanto o Brasil, ainda há quem enxergue a música de maneira tão preconceituosa e ignorante? Por que ainda é tão difícil se viver de música neste país e, principalmente, no Nordeste?
MC - Certamente o maior culpado disso tudo é o próprio músico que nunca se deu muito respeito. Uma prova disso é a Ordem dos Músicos, que deveria funcionar como um órgão fiscalizador assim como o Detran, mas, como sabemos, é comum termos que nos sentar em um barzinho para escutar um cara que não tem condições de cantar nem no banheiro. Então, eu lanço outra pergunta: eu poderia consultar pacientes ou levantar edifícios ou ainda julgar inocente ou culpado um bandido? A resposta é lógica, mas por que qualquer um pode se dizer músico? Cadê a fiscalização?

FS - Quais os seus projetos futuros? Casamento e filhos fazem parte dos seus planos?
MC - Estou amadurecendo projetos na área instrumental e pretendo iniciá-los no começo de 2008. Estarei me casando em dezembro e estou bastante feliz por isso. Tenho a mulher que pedi a Deus e, se tudo der certo no lado profissional, os filhos virão em breve.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Entrevista: Elisa Lucinda


Elisa Lucinda nasceu em Vitória, no Espírito Santo, em 1958, onde se formou em jornalismo e chegou a exercer a profissão. Em 1986, mudou-se para o Rio disposta a seguir a carreira de atriz. Publicou, entre outros, os livros A Menina Transparente, "Euteamo" e suas estréias, O Semelhante e a Coleção Amigo Oculto (trilogia infantil) e gravou os CDs de poesias. Elisa foi a estrela da abertura da III Feira do Livro de Mossoró, onde concedeu esta entrevista. Ela fala do amor ao trabalho, à poesia do cotidiano e à arte de fazer seguir o dom para viver melhor.

Williams Vicente - Você acha que deve haver mais debates sobre literatura?
Elisa Lucinda - As crianças vão à escola e saem sem saber que livro é arte, que o escritor é um artista, sem saber que quando elas amam Harry Potter, Branca de Neve e Dom Quixote no cinema, tudo isso foi livro. A novela que ele adorou foi um roteiro, alguém escreveu. Então ninguém ensina a nossa língua com paixão, como arte, a gente não ensina que o escritor é um artista. Ninguém diz 'leia esse livro, olha que livro maravilhoso', igual um disco que bota uma música pra tocar e você diz, 'aí, empresta?'"


WV- Seria falta de incentivo?
EL - É falta de incentivo e de educação, de clareza, de visão da educação. A educação é muito cheia de conteúdo e sem emoção. O que está mais me incomodando no Brasil é como se fala mal a nossa língua. Estão concordando errado: a maioria 'fizeram'. Que maioria fizeram? E aí periga perder essa língua e suas possibilidades criativas. Não vai acontecer isso porque tem sempre um movimento de renovação natural para sobrevivência da língua, mas eu fico assustada. Acho que tem que saber português para formar novos leitores e autores.


WV - Você se formou em jornalismo, mas o que te levou a procurar a carreira de atriz?
EL - Eu já estudava poesia, declamação desde os onze anos e cresci querendo ser atriz. Fui ser jornalista porque meu pai disse "faz comunicação e fica aqui, você não vai ter que deixar nossa cidade-natal, não vai ter que sair de perto de nós, você é tão comunicativa", e me convenceu que gosto de palavras, ótimos argumentos. Nunca me arrependi de ter feito jornalismo, acho chiquérrimo.


WV - Nunca sentiu falta de exercer o jornalismo?
EL - Sinto falta de escrever uma coluna em jornal.


WV- Já teve?
EL - Já, depois parei, mas eu tô caminhando pra isso, pra fazer parte das ações do meu cinqüentenário, ano que vem. Eu não tenho vontade de parar de escrever. Escrever para mim não é nenhum sacrifício. Atenção jovens que vão me ler, acho que a coisa mais certa, mais inteligente que o ser humano tem a fazer no mundo é identificar os seus dons... o meu dinheiro, meu batom, o frango, o peixe que como, esse pão vem do meu trabalho que escolhi, que eu gosto de fazer. Meus empregos não são decididos por quem dá mais. Eu vou por onde mais me interesso e mais amo. O cara que não gosta de escrever dá três horas de trabalho tá louco pra ir embora. É muito ruim trabalhar no que não se gosta...sai muita gente prejudicada. Há policiais que deviam ser enfermeiros e há enfermeiros que deviam ser policiais (risos), de
tão grosseiros... é um segredo você andar em cima do seu dom. Não tem esse negócio de "ah! Odontologia dá mais!". Então, você pode ser um excelente cozinheiro, não tem esse negócio de que comida não dá dinheiro! Se você for o melhor, o melhor de você, não tem jeito. Eu sempre falo, se meu chefe quiser um outro profissional igual a mim, vai ter que ficar comigo. Pode até encontrar melhor, mas igual a mim não. Meu namorado também, mulher igual a mim não tem, igual? Não tem, tem outras, todo mundo é um, e nesse sentido ninguém tem concorrente.


WV - De onde veio essa vontade, essa garra de querer ser única e mostrar isso pro povo?
EL - Aprendi isso em casa. Minha mãe sempre foi muito bacana, alegre, inteligente. Meu pai sempre dizia isso, "estou criando vocês, mas não me façam passar em qualquer alfândega do mundo e perder toda bagagem. A gente não perdeu nada. Tá tudo aqui".


WV - Quais foram as lições que você tirou do jornalismo e trouxe pra carreira de atriz e pra literatura?
EL - A lição melhor foi a informação. Muita coisa que eu pensava ganhou fundamento. Eu nunca tinha estudado filosofia daquele modo. Compreendi uma coisa do Brasil: geografia... eu poderia ser uma excelente aluna de geografia! Eu nunca fui porque não tive professores que me explicassem que era geografia meu bairro, que era geografia minha praia, a chuva, que era meu bairro, que ficava dentro de um município, que ficava dentro de um estado, que ficava dentro de um país e eu ali dentro. A gente nunca estudou assim. A história, as convenções da vida da gente, eu não sabia que quando falava mal de história eu tava falando mal de mim.


WV - Você acha que isso também é uma deficiência do ensino?
EL - É uma deficiência do ensino, uma falta de visão do ensino brasileiro que vem sendo cada vez menos inteligente. Tem que ter disponibilidade pra ser criativo, sem medo de errar. Isso é que um ser inteligente, não é decorar um catálogo de telefone, inteligência é saber seis coisas, mas fazer dessas seis coisas tudo que sabe. A gente fica numa cultura de vestibular, não sabe nem pra que, aí você diz, fale sobre sua cidade. Aí vem aquela vergonha, não tem as palavras, o estudante sem repertório.


WV - Você já esteve em algumas produções da Globo, mas o teatro fala mais alto?
EL - Eu fico dois anos sem fazer televisão, mas não fico dois anos sem subir no palco. Não é que televisão seja menos, mas o palco é o lugar mais seguro. Meu espetáculo (Parem de Falar Mal da Rotina) tem censura pra 14 anos, mas não deveria ter nenhuma. É uma besteira. Só porque começo tomando banho pelada, deve ser por isso, mas não tem nada demais, é uma peça sobre o cotidiano. Mas não tem nada a ver de pornô. É uma idéia de uma pessoa estar em sua casa, em seu cotidiano e não há coisa mais cotidiano do que um bom banho. É uma pena porque esse espetáculo forma leitores. Por exemplo, em todo espetáculo meu, eu sorteio uma bolsa. Recito um poema e quem adivinhar o autor leva a bolsa (risos) e, a cada espetáculo, falo um poema novo.

WV- Você escreve sobre o cotidiano, a poesia do cotidiano, mas já se aventurou pela literatura infantil. De onde vem esse seu lado?
EL - Eu sou uma criança. Eu gosto da onda da criança, gosto de andar com gente que gosta de brincar de criança, de deixar a criança solta, é outro jeito de tocar a vida. E é muito chato ficar a vida sisuda o tempo inteiro, o dia inteiro. Tem gente que já acorda assim: "amanhã eu tenho prova. Ai, meu Deus, amanhã eu tenho prova". A prova é amanhã, mas vai apodrecendo as outras horas que não têm nada com isso, com a prova marcada de amanhã. E as outras horas que não têm nada com isso ficam sofrendo. Pra mim, escrever pra criança é me deixar em casa com meus coleguinhas.


WV - Há quem critique a poesia do cotidiano por considerá-la menos culta. Isso te incomoda?
EL - É mesmo, é? Não sabia, não. Repete a pergunta. A minha ou a de todo mundo? Quem foi o babaca que disse isso? (risos). Espero que não seja ninguém que está patrocinando a Feira (Risos). É uma bobagem isso. Não vou comentar.


WV - Você passou pelo jornalismo, teatro, literatura, já gravou CDs de poesia?
EL - Já gravei dois, falei que não ia comentar, mas vou comentar. Acho que a pessoa que acha que poesia do cotidiano é menos culta porque acha que poesia não deve ser entendida por todos, ela acha que poesia é um assunto que deve ficar elitista, na prateleira, para poucos. Quem fala que poesia do cotidiano é ruim, tá falando mal de Mario Quintana, Drumond, Adélia Prado, olha o time? E não preciso nem entrar na brincadeira. Acho gravíssimo dizer que é menos culto. O que é menos culto? Acho que uma boa cultura emocional, criativa, pode gerar pessoas muito mais cuidadosas.


WV - Você se vê fazendo uma das coisas, TV ou teatro, por exemplo, ou você acha que só estará feliz se puder explorar toda idéia que vier à mente?
EL- Eu já sei que não dá pra explorar todas, mas vou botando na fila as coisas que têm pra fazer e vou fazendo tudo ao mesmo tempo, tocando a vida. É tudo ao mesmo tempo, né? Tudo é ao mesmo tempo. Eu gosto de explorar minhas potencialidades. Vou fazendo tudo dentro do possível, da hora, porque a gente às vezes quer fazer uma coisa e não está na hora de fazer.


WV - A Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (Uern) organizou um festival de teatro amador. O que você acha do teatro amador?
EL - A palavra diz, é o teatro de quem ama. É no teatro amador que a gente aprende a fazer tudo. Foi lá que aprendi a passar batom. Me apresentava nos teatros do interior do Espírito Santo que hoje são ruins - abafa o caso - imagina 21 anos atrás? Mas aprendi a fazer a iluminação que tinha naquele teatrinho, figurino, cenário... então, isso que estava falando de estudar, de aprender, o ator entender a luz que o está iluminando. O teatro amador é o cerne do teatro profissional. Um bom ator de teatro dá um excelente ator de televisão, mas um bom ator de televisão no teatro parece que está morrendo afogado no palco, não sabe nem pisar, projetar a voz normalmente.


WV- O que é a poesia? Existe alguma fórmula?
EL - Não tem. A única coisa que poesia não tem é fórmula. Existe o dom, quanto mais a gente lê poesia, estuda poesia, a gente fica inspirado a escrever. Vai educando. Tenho um filho de 25 anos que foi educado com poesia, e o resultado é bom. Poesia refina. Poesia pra mim é uma forma de olhar o mundo, e quanto mais liberdade pra gente passear nos nossos bastidores, melhor pra poesia. Quando um ser humano lê um poema 'estou me sentindo um cocô de tristeza' (risos), então talvez, mesmo com essa palavra que não é tão bonita, mas pode estar começando um poema e tocar seu coração.

sábado, 27 de outubro de 2007

Entrevista

Nila Araújo, nascida em 1978 em Campina Grande, na Paraíba, não queimou sutiã ou mesmo saiu às ruas erguendo bandeirolas de nenhum movimento reivindicatório. Em 1999, ela jogou para o alto tudo que fazia e decidiu apostar num sonho. Oito anos depois da façanha, começa a colher as notas plantadas de um trabalho antes dominado pelos homens, especialmente no Nordeste. Como um fruto 'de vez', mas devorado na Paraíba, a agora DJ Hunter (referência à cantora Björk e a postura adotada por ela na hora de caçar o melhor som) não esconde o desejo de devorar as discotecas do Rio Grande do Norte, onde têm forte relação com a paisagem da capital.

Williams Vicente - Como foi que você chegou até a música?
DJ Hunter - Freqüentando a noite, as baladas, me identifiquei com a música eletrônica. Passei a ser baladeira e daí por diante tomei gosto por tentar fazer aquilo que eu achava que faltava nos dominadores das pistas. Mas antes eu já curtia os primórdios, como Depeche Mode, Information Society, Erasure, kraftwerk... então antes de me tornar baladeira, já curtia os primeiros sons eletrônicos. Sempre prestei atenção no que faltava devido a cultura da cidade (Campina Grande) estar muito ligada ao rock e a música alternativa. Digamos que a música eletrônica no seu boom (DJ's) chegou fazendo parte dessa cultura trazida primeiramente pelo gueto GLS, posteriormente aderida por outros guetos e atualmente por todos os grupos sociais na cidade.

WV - O que você fazia antes disso?
DH- Trabalhava em locadoras de vídeo, pois também sou cinéfila, ou seja, procuro fazer o que gosto (risos).

WV- Então quer dizer que o universo GLS é uma fonte inesgotável de lançamentos de tendências?
DH- Sem dúvidas, pois eles têm toda uma cultura envolvida com a música eletrônica. Quando você fala em boate, ou vai a uma cidade que tem boate, ou você encontra uma boate GLS ou muitos deles nas baladas. Porém, eles têm seu próprio estilo e conhecem aquilo que gostam e que consomem. Cultura no nosso meio é fundamental, você tem que saber o que está consumindo, como curtir, e saber sobre MPB, bossa nova, o mesmo se dá na musica eletrônica.

WV - Isso quer dizer que o universo GLS é mais antenado e tem gosto melhor pela música?
DH - Não, isso não quer dizer que eles tenham gosto melhor, absolutamente. Apenas que sabem sobre aquilo que estão ouvindo, diferentemente da cultura de massa que não identifica os estilos, as vertentes. Mas também acontece o preconceito, pois, tanto eles não aceitam dentro do gueto outros estilos que não sejam o deles, como também se você tocar a vertente deles em outro ambiente, logo irão identificar que se trata de uma música mais 'alegre' (risos).

WV - Por que há essa separação, a música eletrônica não é essencialmente de massa?
DH - Falei demais? (risos). Não, ela se encontra na massa, mas os estilos, as vertentes tendem a separar os grupos sociais, como vemos nos grupos que consomem outros estilos, como exemplo: quem curte pagode tá lá na mesa de bar ouvindo, quem curte MPB tá no barzinho, rock tá no show, e na música eletrônica, mesmo que você tenha um DJ em qualquer desses lugares, ele tem que se adaptar ao público. Por exemplo: se o Dj vai tocar pra um grupo que consome o padoge, ele tem que agradá-lo chegando o mais próximo possível da realidade deles, tocando funk por exemplo. Se for tocar pra galera roqueira, tem que tocar batida quebrada, com big beat, breakbeat, drum n'bass, hip hop.

WV - Mas, qual é seu estilo?
DH - Breakbeat e big beat, mas às vezes sou chamada pra tocar em boites, aí faço o diferencial, atualmente com electro.OM - E isso não te incomoda? Ter que tocar de tudo e não apenas a vertente que você escolheu trabalhar?DH - Mas eu não toco de tudo, apenas comentei sobre como a música eletrônica chega aos diversos grupos. Eu apenas trabalho dois tipos de grupos, o GLBTS e o alternativo. Portanto, toco o que gosto. Tenho mais afinidade com a batida quebrada, com a qual posso criar e me dar a possibilidade de interagir melhor tocando ao vivo.

WV - Então, um Dj não é mero executor de música...
DH - Jamais ele pode ser. A ponto de levar a música eletrônica de alguma forma pra quem não tem acesso até está valendo, mas para aqueles que já fazem parte dessa cultura a coisa muda de configuração. Hoje em dia o DJ tem que produzir suas próprias músicas e não apenas executar músicas de outros produtores. Por isso, depende da cultura. DJ chegar numa cidade pequena fazendo scratch, neguinho não vai entender nada.

WV - Você deve ter encontrado muitas dificuldades para vencer nessa área, não? Por ser mulher talvez?
DH - Sim, no início. Mas hoje em dia isso é até motivo de valorização por não ser muito comum. No princípio passei alguns preconceitos e dificuldades. Os Dj's não se conformavam de participar de uma festa comigo e no final das contas eu ter sido a melhor da noite, por exemplo. Como pode, uma mulher? Voltando um pouco atrás, vejo essa divisão como arte ou entretenimento.

WV- Discotecagem é arte?
DH - O Dj que executa é entretenimento, o que se preocupa em fazer o diferencial é arte, depende. Porque ser Dj é discotecar.

WV - Dj dos anos 90 pra cá, quando a música eletrônica chegou às massas, virou moda, passou a ser cultuado como ídolo. Você se importa com o espaço que a profissão ganhou graças ao modismo, ao empurrão que a mídia deu? Vejamos: The Chemical Brothers, Moby, Fatboy, sem esses precursores da cultura pop o Dj não seria requisitado como o é hoje.
DH - Claro que não me importo até porque esses são profissionais mesmo, produzem cada um na sua configuração, não são Dj's que tocam apenas set´s mixados de outros produtores. Claro que não desvalorizo, pois é necessário que hajam os tocadores de set, mas o cara não pode parar por aí. Os Dj's devem ter como referência esses precursores pra compreender melhor o universo e ter a ambição de crescer e produzir, pra acabar com esse mito de que Dj não é músico.

WV - Isso quer dizer que você é uma artista?
DH - Me considero, pois além de produzir, procuro inovar quando estou tocando, interagindo com a música, construindo efeitos, não apenas executando. Também interajo com músicos, o que me traz o diferencial.

WV - São Jam's com bandas?
DH - Faço sim, já toquei com Chico Correia, Baixinho do Pandeiro, Etnia Sound, são músicos pernambucanos e paraibanos.

WV - E o RN? Eu sei que você costuma trabalhar por Natal, o que rola por lá?
DH - Cultura norte-americana. O que os EUA estiverem consumindo chega por lá. No caso, ainda atualmente a vertente mais forte por lá é o electro. A diversidade é interessante, mas ainda deixa a desejar no sentido produção musical e live P.A (entenda-se fazer discotecagem ao vivo).

WV - Mas baseada em que você diz isso? Você conhece a cena rave de lá?
DH - Em Natal, participo mais das festas dadas em boites. O único ambiente livre que toquei foi no MADA, mas a raves não, pois de uns dois anos pra cá o Psy Trance roubou esta cena, o que deixa os DJ's por fora. Não considero Dj de Psy um DJ, é um executor.

WV - E Mossoró, já ouviu falar?
DH - Bastante. Já recebi convites pra tocar aí, mas quando soube da distância, cabritei (risos). Como eu estava muito cheia de trabalho, deixei pra próxima. Um de meus alunos já tocou na cidade e me falou que o público é bem divertido, que não esperava pela agitação que foi. Achava que só na capital era assim.

WV - Voce é professora?
DH - Também. Me importo com a educação dos novos profissionais na área.

WV - Você promove cursos de DJ no caso...
DH - O próximo módulo inclusive será em João Pessoa. Quem sabe um dia em Mossoró.

WV - O que é a música eletrônica afinal?
DH - Música feita a partir de equipamentos eletrônicos sem a necessidade de tocá-los como instrumentos, mas de construir música a partir de sons que são construídos em softwares ou processadores de efeitos. Tem tudo, segue-se compasso, ritmo, harmonia, melodia, isso vai depender do profissional que a constrói. Espírito, o espírito do pós-modernismo, todos os ruídos que temos que ouvir hoje em dia pelas máquinas e usinas podem ser transformados em música. Como diz Björk, tudo é música.